Carta 0
(d)I(n)stintos
Eis que a pátria solta o grito surdo. A alma social refrigerada, come silenciosa o pão desgraçado e maldito de séculos de subserviência. O chão, encharcado das salobras lágrimas dos filhos da pátria, nu e insosso se abre para o enterro. Não há mais sonho. Tementes, os filhos se entregam à tepidez. Escalam os níveis mais profundos das orgias, vivendo noites e dias na expectativa de findarem-se no limbo das suas próprias vicissitudes.
Procuram em si o que não existe. Perdem-se em labirintos infindos, vagueiam famintos entre a impassividade e a ignorância. Filhos do chão, rebentos de terra, caminham tergiversados na condescendência puntiforme entre o impávido porvir e o simplório sobreviver. Instintos. Nada mais que instintos. Os filhos sedentos manifestam a razão intolerante. Manifestam a inconseqüência. Pululam de arrependimentos. Maquiam-se de sorrisos falsos. Batem-se em mistérios inglórios.
Onde há céu quando tudo o que se busca é um espaço para pousar o corpo inerte no subsolo? Quem de nós credita a si o dom de guiar um bando de nefastos anacoretas em sua dança cataclísmica em busca do limbo?
Sim, senhores, poetas, cantores. O mundo morreu. Vastas provisões de desespero se concentram nas florestas das cidades. Florestas de cimento e egoísmo. Invisibilidade. Quem de nós gritará neste teatro de almas desgarradas?
A vilania comenta a derrocada da virtude. Como aves de rapina, sucedem-se sobre os corpos ainda vivos dos trabalhadores da cidade e do campo. Sorriem. Sentem-se deuses, onipotentes. Cativam com seu paladar corrupto as mãos e pés dos livres e sábios.
Irmãos de fé e armas, oremos juntos no enterro do passado. Galguemos juntos o caminho da virtude e, enquanto forças houver que nos separem da via esburacada e obtusa da razão, que nosso sangue, suor e trabalho nos guiem.
Mãos que engolem o choro dos anjos. Pés que galgam silentes as escadarias dos precipícios. Vinde conosco, vós que ainda sonhais e empunhai com candura e enternecimento as espadas abrasadoras de um novo futuro.
Vós que ousais desafiar o ábaco, repercuti o brado intermitente dos utópicos. Eis que chega a hora de nos unirmos. Eis que chega a hora de discutirmos o futuro e, com as mãos catalisadoras da eternidade, surrupiar o espaço e construir a paz.
É isso aí, gritemos, pois “para a liberdade fomos chamados”, já dizia Paulo.
Um poema à liberdade…um voto para paz!
Faço-me co-signatário desta carta que, nas palavras do nosso estimado amigo Poeta, desencadeia-se da alma como um “grito surdo”. Pela liberdade empunharemos todas as espadas que a expressão escrita nos dispor.